Atravessram a rua, ao meu braço todos os velhos e doentes, ...]
Fui para cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas as emoções, [...]
E ouve um segredo que me disseram todos os assassinos [...]
Pagaram-me bebida [...] todas as sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive [...] com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções! [...]
Ó fome abstracta das coisas,
Cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida! [...]
Beijo na boca todas as prostitutas [...]
Cometi todos os crimes [...]
Multipliquei-me para me sentir [...]
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas [...]
Mary, eu sou infeliz... Freddie, eu sou infeliz... [...]
Meu coração postigo, meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice,
Eh lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração
Eu [...] que sou um diálogo contínuo,
Um falar alto incompreensível [...]
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada [...]
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem presonalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis [...]
Eu, a paisagem por detrás disto tudo [...]
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si,
Eu, o que eles não sabem de si,
O destinatário das cartas lacradas [...]
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram [...] em cima de mim,
Todos os desprezados enconstaram-se [...] ao meu ombro,
Dormir como um cão corrido no caminho,
Ao sol,definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.
Letra do poema "A passagem das horas", de Fernando Pessoa
Arranjo: l. manzoni/fabiano foresti/daniel scopel/f. foresti
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